sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Às vezes acho que, se eu não te conhecesse, pensaria que você é uma personagem de alguma série, filme ou algo assim. Quer dizer, essa coisa de você escrever, ser solteira aos quase trinta, viver com vários gatos, colecionar bonecas e andar de calcinha e camiseta pela casa. Tem corpo de femme fatale e fígado de pedreiro. É caricato demais, sabe. Quase não convence.
− Tudo bem, me deixa analisar. Sou tão autêntica que pareço irreal, é isso? Sendo assim, para todos os efeitos, aquelas mulheres passeando nos shoppings com unhas de porcelana eternamente vermelhas, cabelos perfeitamente escovados e todos os problemas da vida escondidos atrás de camadas de maquiagem são a coisa real? Vi um exemplar esses dias na sorveteria, estava reclamando que está solteira. Talvez pareça uma ótima moça, mas seja superficial, entediante ou histérica.
− Ou paranoica.
− Paranoica sou eu, mas pelo menos não sou histérica, seria muito pior. A parte ruim de ser paranoica é que...
− ... você é paranoica.
− Olha, se você vai ficar completando minhas falas, a conversa acaba por aqui. O que eu queria dizer é que histérica é a pior coisa que uma mulher pode ser.
− Não, o pior é ser poeta.
− Não entendo como ser poeta pode ser ruim para alguém além dela mesma.
− Uma poeta pode acabar com a vida de um cara, mandá-lo pra debaixo da ponte existencial. Ela irá te imortalizar nos versos, pro bem ou pro mal. Mais provavelmente para o mal, porque nada inspira tanto quanto relação que acaba em merda. Basta uma Trova ao Mau Amante, uma Ode à Paumolescência, e pronto, não há terapia que recupere o cidadão.
− Sério? Pensei que o que acabasse com um homem fossem os intermináveis almoços de domingo em família, a hipoteca, a prestação da mini van, o joanete causado pelo sapato social, a novela das nove, o sexo morno com hora marcada, as confraternizações de fim de ano da empresa.
− Isso também, mas o efeito é homeopático. O cara agoniza por anos. Com a poesia é diferente: uma leitura de poucos minutos e já era, o serviço está feito.


domingo, 29 de junho de 2014



 Não escrevo hoje com pretensão literária alguma. Este texto, na verdade, possui uma única e simples função: dizer-te o quanto você é um babaca.
Doeu? Então respira fundo e relaxa, porque vai doer mais. Espero que doa tanto quanto doeu em mim quando você me fez de trouxa. Eu sei, falei que não estava com raiva e tal. Mas sentimentos são mutáveis, ainda mais nessas situações. 
Partirei do pressuposto de que você nem faz ideia do que eu estou falando. Portanto, comecemos com uma citação clichê, dessas que toda miss usa uma vez na vida (mesmo porque foi isso que você se tornou na minha história: um cara clichê, com atitudes clichês).
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." Meigo, né? Já deve ter estampado milhões de capas de cadernos, agendas, camisetas e alguns daqueles adesivos cafonas que as pessoas colam nos carros. E mesmo assim, a humanidade caga para o significado dessa oração.
Para não me demorar neste assunto, resumirei minha humilde interpretação: se você se aproxima de uma pessoa com a intenção de forjar qualquer tipo de vínculo saudável, a sua obrigação é, no mínimo, não cagar na vida dela. 
Não parece muito difícil, né? Mas é. 
É difícil lidar com seus problemas pessoais e não envolver outras pessoas nos seus assuntos mal resolvidos. Mais difícil ainda é pensar com a cabeça de cima quando tem uma ruiva semi bêbada ao seu lado no sofá, toda confiante. 
É tão difícil que você não se lembra de que, teoricamente, não tinha segundas intenções ao entrar no apartamento de uma mulher solteira que mora sozinha. Nem se lembra de que em algum lugar do mundo existe uma pessoa que você chama de namorada, mesmo que, aparentemente, ninguém saiba dessa relação (se é que ela existe).
Então é isso aí, sua consciência se nubla e repentinamente você é só um macho tentando pegar uma fêmea. Essa parte eu até que me esforço pra compreender. Hormônios, instinto etc. Um par de peitos na sua frente e foda-se a razão. Como você mesmo disse, você abraça a causa. Abraça, beija, aperta, apalpa e dorme abraçadinho, na verdade. 
O problema é que a causa não vira uma pizza no dia seguinte, né campeão? A causa levanta e vai trabalhar achando que teve uma noite legal, que talvez se torne um lance bacana. Até releva o fato de você não ter as mãos mais habilidosas do mundo, afinal essas coisas podem ser ensinadas.
É aí que bate o desespero, né? No dia seguinte a vida continua, mas a noite passada não será apagada da história, então é melhor marcar aquele encontro como quem não quer nada, preparar a expressão clássica de arrependimento e assumir de vez que fez cagada. Em seguida você some, espera algum contato e depois usa a oportunidade para se vitimizar um pouco, afinal está sofrendo tanto com a situação na qual você mesmo se colocou. 
Acontece que ninguém vai passar a mão na sua cabeça e te chamar de bom garoto por ter reconhecido o erro: isso era o mínimo que qualquer ser humano vagamente decente deveria fazer. Em vez disso, serão cobradas algumas respostas que possam redimir seu caráter, ao menos em partes. 
Putz, respostas? Ai, que preguiça. Você não deve satisfações a ninguém. Nem à sua namorada, nem à outra pessoa que você envolveu nisso.
Mas, por um lado, tá tudo certinho né? Você vai se retirar por um tempo, se remoer de remorso e depois agir como se nada tivesse acontecido. Então vai ficar tudo bem, não vai?
Não, não vai. 
Não vai porque, graças a uma mancada sua, graças a uma tentação à qual você (diz que) não conseguiu resistir, existe uma pessoa que já possuía sérios problemas de confiança e agora acredita que não confiará em mais ninguém até a próxima encarnação. Existe outra pessoa que foi traída e talvez ainda nem desconfie disso. 
E quanto a você, amigão? Sinto dizer, mas você entrou para as estatísticas: toda vez que se deparar com uma matéria dizendo que quase metade dos homens já traiu uma parceira, lembrará que pertence a esse grupo. 
Pior: imaginará a quantidade de meninas ingênuas e românticas que têm seus corações partidos toda vez que leem uma pesquisa dessas, passando cada vez mais a acreditar que "homem não presta mesmo" e que romantismo é utopia. 
Agora eu sou o dedo na sua ferida, certo? Ótimo. Você reabriu todas as feridas na minha confiança, então acho justo. 
Quem sabe da próxima vez você assuma logo que só quer alguém por uma noite, sem precisar de demonstrações de afeto para ganhar a confiança da pessoa e de desculpas no dia seguinte. Talvez você considere que aquele ser tão bom de apalpar tenha um coração debaixo da carne macia, e que eventualmente esse coração tenha sentimentos. Ou quem sabe você varra essa história toda pra baixo do tapete e siga a vida como se nada tivesse acontecido. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Metade saudade, metade rancor

Mais uma noite na qual pego o computador, abro um arquivo e me obrigo a escrever - mas não sai nada.
Justo hoje.
Hoje faz um ano que você se foi, e ainda me pego te procurando quando entro naquele quarto. Estranha essa mania das pessoas de procurar ver o que não está mais ali.
Às vezes gostaria de ainda ser aquela menininha que subia no seu colo e lhe pedia para contar (pela enésima vez) a história daquela boneca que, mesmo quebrada e cheia de defeitos, ganhou vida porque alguém a amou como era. Mas não sou uma menininha há muitos anos, você não está mais aqui e tenho muito mais defeitos do que a boneca da sua história.
Só o que me resta são as lembranças. E quando começo a lembrar das suas particularidades, das suas manias, descubro-me tão parecida com você que me assusto - principalmente quando penso no seu fim.
Eventualmente, me pergunto se você se orgulharia da mulher que me tornei, mas raramente chego a uma resposta. Recordo aquela vez na qual você me viu chorando por um cara e, em vez de me consolar, falou que eu devia parar de agir como uma retardada. Naquela época doeu, mas hoje acho que foi a melhor coisa que você poderia ter dito.
Talvez por isso eu tenha tido aquele sonho dias atrás, no qual você me lançava os mais diversos insultos, e eu tentava me convencer de que era sua doença falando, mas você sequer parecia doente.
Neste momento sou metade saudade, metade rancor; em vários sentidos.
Perdi você, meus avós, meus tios e a tia Gracinha, que na verdade era sua tia, que me pegava no colo e fazia bolo de fubá. Aprendi que amor também se esvai.
Reflito sobre todas essas saudades, sobre o inevitável processo de endurecimento do meu coração, sobre uma boa maneira para finalizar este texto.
Não chego a conclusão alguma que me agrade.



terça-feira, 17 de junho de 2014

"Sinônimo de culpa"


"Sabe, eu acho que todo cara que faz uma cafajestagem deveria receber uma marca na testa, feita com um belo facão, como eles faziam em Bastardos Inglórios, para que o que eles são nunca pudesse ser ignorado ou escondido. Ou fazer uma tatuagem com a Lisbeth, de Os Homens que não Amavam as Mulheres.
Depois os caras reclamam se a mulher se torna uma megera... porra, mas a gente tenta, não? Tenta acreditar e até ser romântica, mas daí vem a vida... e os homens."

Pois é, minhas amigas têm opiniões um tanto radicais acerca de falhas de caráter. E elas têm motivos para isso.

Ou não.
Talvez, no fundo, sejamos mesmo só um bando de histéricas, exageradas e paranoicas fazendo dramas por nada.
Como quando aquele cara falou que sonhava com uma família só porque era a melhor estratégia para conquistar minha confiança.
Ou quando aquele outro declarou-se em uma noite, dizendo que queria tanto me ver que não poderia esperar o dia seguinte. Depois compreendi: no dia seguinte, comprometeu-se com outra mulher.
Ainda houve aqueles para os quais fui objeto de traição, sempre com a mesma desculpa: "não sei o que aconteceu, não consegui resistir".
A partir daí concluí, obviamente, que a culpa é minha, tanto como é da vítima de saia curta a culpa pelo estupro.
Tanto como foi minha culpa quando aquele amigo de uma década quase me forçou ao que eu não queria. Pobre rapaz, me achou tão irresistível que não percebeu quantas vezes o mandei parar, nem meu esforço para me livrar.

Mas no fim, não importa. Qualquer coisa que te faça debruçar por quase três horas sobre um texto e, ainda assim, não traga uma inspiração decente, não pode valer a pena.


Talvez por isso eu ainda escreva tanto pensando em você, inclusive textos que nunca publico. Escrevo para você sem intenção alguma, pois vale a pena escrever; porque a inspiração é tal que não pode ser negligenciada. Meus melhores textos ainda são, se certa forma, para você... Sir.


sábado, 17 de maio de 2014

A mágica do cotidiano

A mágica do cotidiano existe. Ainda que muitos não acreditem, ela está sempre lá, esperando para acontecer. Como aconteceu num fim de tarde de uma sexta-feira.
Ela passava por aquela esquina todos os dias, voltando do trabalho. Caminhava sempre rápido, não porque tivesse pressa, mas porque o ritmo da música nos fones de ouvido a embalava a seguir acelerada, e a mente inquieta não aceitava outro passo.
Neste dia, havia músicos de rua na esquina. Era comum nas sextas-feiras. Um violinista e um violoncelista, dois violinistas ou um saxofonista. São Paulo é repleta de músicos de rua.
Desta vez, era um violinista já conhecido que tocava, acompanhado por um violoncelo. Mas o violoncelista era um rosto novo para ela. Passou por eles a passos rápidos, como sempre fazia. Talvez não tivesse parado para ouvir a música. Mas então a mágica aconteceu.
Entre todos os rostos na correria da metrópole, ele olhou para o dela. Mais do que isso: ele sorriu. Por um instante, ela continuou seu caminho, mas não foi muito longe. Deu meia volta, tirou um dos fones de ouvido e, por um minuto, parou para ouvir a música. E ele percebeu que ela havia voltado. E mais uma vez sorriu.
Ela poderia ter ficado mais. Poderia ter ouvido a música inteira, ter deixado uma moeda. Mas escolheu sorrir de volta e continuar seu trajeto para casa.
Tinha se apaixonado, e se não tivesse ido embora o encanto acabaria, e ela seria só mais uma expectadora itinerante deixando uma moeda no estojo do instrumento. E para ela, ele seria só mais um músico de rua que a fez parar e tirar umas moedas da carteira.
Ela é do tipo que se apaixona todos os dias: por uma pessoa particularmente charmosa na rua, por uma música que a toque profundamente, por uma flor num galho de árvore no meio do cinza, pelo céu que está especialmente azul. Por um filme que a faz sonhar, por uma obra de arte que a encante, por um gato de rua que permita que ela o acaricie.
Não são paixões feitas para durar. São sentimentos passageiros que vêm para trazer um pouco de beleza para um dia comum. De algumas, ela mal se recorda no dia seguinte, mas mesmo estas não deixam de ser importantes. E a paixão desta sexta-feira é um violoncelista de olhos verdes na esquina da Rua Augusta com a Avenida Paulista.
Provavelmente eles nunca mais se vejam. Provavelmente ele não se lembre do rosto dela até o fim da música. Mas não importa, porque por alguns preciosos instantes, eles se sorriram.
E ele talvez nunca saiba, mas aquele foi o único momento de beleza do dia dela. E o dele foi o único sorriso sincero que ela ganhou e provavelmente ganhará nesse dia.
Ele não sabe, mas ela teve uma semana péssima, caminhando no fio da navalha, suportando cada dia o melhor que conseguia, mas não nesse dia, nesse dia as forças se esgotaram e ela não podia mais ser forte.
Ele não sabe, mas em algum lugar do interior o pai dela está morrendo numa cama, e a mãe se desespera e desconta nela suas frustrações, sua vida infeliz, seus arrependimentos. Em algum lugar da noite, o cara que ela gosta vai se divertir enquanto a deixa chorando em casa sozinha. E a conta bancária dela tem apenas dois dígitos, e o mês está longe de acabar.
Ele nunca vai saber que, assim que atravessou a Paulista, ela não conseguiu mais conter as lágrimas que vinha segurando o dia inteiro, e algumas rolaram discretamente, sem que ninguém percebesse (porque quase ninguém se olha duas vezes nessa cidade). E foi o sorriso que trocaram que libertou aquelas lágrimas. Porque o dia dela foi péssimo, mas o sorriso de um estranho a ajudou a superar. E ela foi correndo para casa, mais apressada do que de costume, pois sentia a necessidade inadiável de contar por escrito o que acabara de acontecer.



29 de março de 2012.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pardonnez moi, s'il vous plaît

Não tenho companhia para ir ao cinema amanhã. Gostaria de ver aquele filme para o qual você me convidou com tanto entusiasmo, mas não iremos assisti-lo juntos. Nem a esse, nem a nenhum outro.
Sei que seria ótimo, que nos empolgaríamos como adolescentes e falaríamos sobre o enredo, os personagens, as possíveis continuações e as inúmeras teorias durante todo o caminho de volta, riríamos de coisas bestas e não veríamos a hora passar.
Sinto muita falta disso, você sabe.
Mas não posso voltar atrás, entende? Não posso voltar, pois também sei o que se passaria "secretamente, entre a sombra e a alma" - como diria Neruda, pois os poetas sempre sabem das coisas.
Sei da ansiedade que precederia o encontro. Sei como eu sorriria quando você chegasse, como suas gentilezas me deixariam mais leve. E como, mesmo atenta ao filme, eu ficaria consciente da sua presença. Como o simples desejo de poder segurar sua mão ou deitar a cabeça no seu ombro me faria sentir tola e leviana. E durante a caminhada de volta, quando caísse entre nós o silêncio inevitável que sucede cedo ou tarde, eu teria de desviar o olhar, caso contrário me entregaria, transparante como meu nome.
E depois que me deixasse no portão de casa, me abraçando em despedida por meio segundo (que eu desejaria fosse meia hora, meio dia),  eu te imaginaria voltando para a sua vida. E quando chegasse ao elevador, a culpa começaria a me tomar, dez por cento a cada andar, até que, ao abrir a porta do apartamento, encontrando apenas as gatas e o silêncio, me sufocaria inteiramente.
Assim, sufocada pela culpa, paradoxalmente desolada, eu escreveria. Escreveria sobre melancolia e benquerença, sobre a solidão e as auto-acusações. Perderia uma ou duas noites de sono. "Afogaria-me em Ofélias".
E de algum modo, hora ou outra, você saberia. O que, certamente, me faria sentir ainda mais inconveniente e condenável.
Sendo assim, peço desculpas pela impertinência e pelo lirismo, pelas palavras e períodos que o espírito de pretensa escritora não pode conter. Sempre fui de tempestades.
Ausento-me não por gosto, mas por precisão. Não por falta de sentimento, mas por demasia.

Pardonnez moi, s'il vous plaît.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Quatro Estações - Primeiro Movimento

Encontraram-se pela primeira vez naquela esquina onde a Rua Augusta se encontra com a Paulista, um dos lugares favoritos dos músicos de rua de São Paulo. Era verão, e os cabelos ruivos dela pareciam faiscar ao sol. Os olhos verdes não miravam ninguém: a atenção era dividida apenas entre o violino no qual tocava Vivaldi e o estojo do mesmo, onde os ouvintes itinerantes depositavam suas moedas (ou, com muita sorte, uma ou duas notas pequenas).
Ele derretia dentro do terno preto, sapatos pretos e meias pretas. A luz do sol não acrescentava atrativo nenhum aos cabelos escuros, e os olhos escuros cansados prestavam atenção apenas no caminho, mas os ouvidos eram menos obedientes: a música o capturou.
Pensou em parar apenas por um minuto. Em seguida, escolheu escutar a música até o fim. Decidiu esperar para cumprimentar a violinista. Finalmente, sem saber ao certo como, estava convidando-a para tomar um café um dia desses, quem sabe, ao final do expediente dele.
E foi assim que tudo começou, num dia de verão.
Ele pensava que ela parecia uma gata de rua: ousada e orgulhosa, o corpo ondulando ao caminhar, as costas  se arqueando quando se espreguiçava, a displicência com a qual sentava-se e cruzava as pernas. Os olhos verdes sempre brilhavam, e ela sorria como quem sabe um grande segredo do mundo. Amorosa e livre, doce e voluntariosa. Sempre leve. Uma gata de rua.
Ela ria do mundo regrado dele, do emprego com cartão de ponto, dos ternos. Mas gostava de saber que ele sempre estaria por perto, e gostava do chá que ele fazia toda manhã.
Ela era aquilo que coloria seus dias.
Ele era sua âncora na vida.
Ele a levou a lugares elegantes, a ensinou a escolher vinhos, deu-lhe um arco de pau-brasil para seu violino. Ela o ensinou a gostar de filmes franceses e de concertos, e aos domingos o acordava com uma música e fazia bolo de limão.
E dessa maneira, entre os vinhos e o som do violino, eles passaram o outono.
Quando ele chegava em casa, nos dias mais frios, a encontrava quase totalmente imersa na banheira, apenas o rosto fora d'água, cabelos vermelhos boiando ao redor. Chegara mais cedo. Não se fazia muito dinheiro com música de rua no inverno, e era difícil tocar com os dedos gelados. Pela casa inteira sentia-se o doce perfume de flores dos sais de banho que ela usava - presentes dele, luxo que ela nunca tivera antes. Não que ela fizesse questão desse tipo de coisa, mas os sais deixavam sua pele com um cheiro que ele adorava, uma mistura de flor de cerejeira com algo que era totalmente dela.
Numa dessas noites, ela o puxou para dentro da banheira, de terno e sapatos de couro. Em outros tempos, ele teria ficado profundamente aborrecido - um terno sob medida e sapatos caríssimos, como pode fazer isso? Mas, daquela vez, apenas riu enquanto ela o ajudava a livrar-se das roupas.