quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Fresas argentinas

O beijo dele tinha gosto de morangos argentinos. Ele sequer comera morangos, mas podia-se sentir o sabor: doce e vermelho, levemente amaro. Amar o. Amá-lo.
Ela não relacionava o paladar às balas de alcaçuz que havia comprado para ele. Não estava mais na noite fria de São Paulo. Havia sido transportada para uma manhã de sol na Recoleta. Mães levavam suas crianças pelas mãos a caminho da escola. Idosos faziam fila na frutería de esquina.
A frutería… o aroma fresco dos morangos. Os maiores, mais vermelhos e tenros morangos que já provara.
Passara meses sonhando com aqueles morangos, e agora era como poder degustá-los mais uma vez.
Algum dia saborearia os morangos argentinos novamente, naquela mesma frutería na Recoleta. Ao lado dele.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O intolerável era: ela era escritora.
Pouco importavam os olhos claros, os cabelos longos, a educação privilegiada, os certificados dos cursos de francês, violino, canto, dança, teatro.
O inferno era o fato dela ser escritora. De poder citar Poe e Guimarães Rosa e Vinícius e Camões e Gonçalves Dias.
Ela não precisava buscar no Google para saber quem seria Manoel de Barros.
E era uma devassa, claro. Todos os escritores são. A própria história da Literatura confirma isso. As perversões de Sade. Os escândalos de Oscar Wilde. A licenciosidade de Rimbaud e Verlaine. Charles Dickens, então, santo Cristo: um potencial para escandalizar toda a Inglaterra vitoriana.
Havia ainda a relação desajustada dos Fitzgerald. “A geração perdida”. O que esperar de gente com essa alcunha? E o maldito Bukowski, inspiração degenerada de milhares de jovens incautos. Um dos favoritos dela.
Não se podia confiar em uma escritora que admirava Simone de Beauvoir. Sua relação com Sartre sequer devia ser chamada de casamento. Qualquer mulher de bem sabia disso. E sabia também manter distância segura de Anaïs Nin e sua escrita pornográfica. Até o nome da cretina era pornográfico, que vexame.
Escritores são depravados. Poetas ainda mais. Castro Alves e suas muitas amantes, por exemplo. E Edgar Allan, poeta de muitas musas. Crápulas.
Todos os vícios podem ser encontrados nos escritores. Basta ler algumas páginas de Baudelaire para saber disso.
Mas os mais abomináveis e sórdidos vícios, aqueles que realmente ameaçavam a sociedade, não eram os “Paraísos Artificiais”. Eram, antes, o dom da dialética, a cultura, a paixão, a avidez pelo saber, a análise crítica. E o pior de tudo: a liberdade de pensamento. Para onde iriam os bons costumes desse jeito?

Que Deus nos livrasse dos escritores.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Tenho um suéter cinza que era do meu pai. Na verdade, foi uma das últimas peças de roupa que ele ganhou, antes que a ferida nas suas costas deixasse os ossos quase expostos e vesti-lo parecesse um ato mais cruel do que amoroso. Nos seus últimos dias de vida, o aquecíamos apenas com cobertas.
Uso o suéter em casa sempre que esfria um pouco. Fiz dele meu pijama favorito. Poderia usar outros agasalhos, mas não me aqueceriam da mesma forma. Vago pela casa com o suéter masculino, grande demais para mim, já um tanto molambento.
Não preciso de mais nada, preciso? Uma multidão de lembranças me faz companhia. Meus fantasmas me consolam, me enxugam as lágrimas.
Tenho meu suéter cinza e meus comprimidos - durmo meu sono sintético no abraço da saudade.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

“Então você vai voltar pra casa hoje, colocar a gata no seu colo e ficar triste, é isso?”
Era exatamente isso, na verdade.
Jantar duas cervejas, voltar para casa cantarolando “tell me why I don’t like mondays...”.
Aguardar a tempestade que não pede licença.
“Transe primeiro, fale de poesia depois.”
“Deixe de ser tão poética, seja mais direta.”
“Stranger in the night, a lonely person I was a stranger in the night...” Não, não era isso. Mas não importava.
Em sua bolha em preto e branco, nem o acaso penetrava.





segunda-feira, 25 de agosto de 2014

"Gosto de te ver ao sol, leãozinho"

Algum dia vou escrever pra você.”
“Não, não vai.”
Foi isso o que dissemos naquela segunda vez que dormimos juntos, na casa daqueles amigos, altas horas da madrugada. Mas eu sou a escritora rebelde, minha palavra é desobediente: escrevo agora como a criança que bate o pé. “Você não manda em mim.” Orgulho de virginiana.
Não que você não fosse gostar que eu te escrevesse. Pelo contrário, desde aquela época eu sei que você gostaria, de verdade, mas ficaria sem graça, logo você, o Senhor Sem Vergonha, o Pau pra Fora.
Mais tarde, você me disse que não sabia lidar com demonstrações de carinho, o que, veja bem, é uma grande ironia: troco meu coração por um cookie, mas cookies são doces. Renego o romantismo, mas não deixo de ser carinhosa. Você era um puto, mas um puto de alma lúdica e coração de ouro.
E assim passamos as semanas: eu, que não queria ninguém por perto, esperando uma mensagem, qualquer gracinha sua; você, sempre durão, fazendo pequenas amabilidades.
Você chegou no meu momento solitário, quando sentia-me dura e indesejável, e mudou tudo isso.
“Você me fez acreditar. E ver que, às vezes, mulheres são turronas, mas são fofas e gentis”, foram as suas palavras.
Agora só desejo que você seja estupidamente feliz, ronronando num colo mais amoroso que o meu, recebendo um sorriso mais leve. Que dure o tempo que tiver de durar. “Que seja doce.”
Desculpa, sei que te deixei sem graça de novo. Não fiz por mal. É que eu “gosto tanto de você, leãozinho”.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Às vezes acho que, se eu não te conhecesse, pensaria que você é uma personagem de alguma série, filme ou algo assim. Quer dizer, essa coisa de você escrever, ser solteira aos quase trinta, viver com vários gatos, colecionar bonecas e andar de calcinha e camiseta pela casa. Tem corpo de femme fatale e fígado de pedreiro. É caricato demais, sabe. Quase não convence.
− Tudo bem, me deixa analisar. Sou tão autêntica que pareço irreal, é isso? Sendo assim, para todos os efeitos, aquelas mulheres passeando nos shoppings com unhas de porcelana eternamente vermelhas, cabelos perfeitamente escovados e todos os problemas da vida escondidos atrás de camadas de maquiagem são a coisa real? Vi um exemplar esses dias na sorveteria, estava reclamando que está solteira. Talvez pareça uma ótima moça, mas seja superficial, entediante ou histérica.
− Ou paranoica.
− Paranoica sou eu, mas pelo menos não sou histérica, seria muito pior. A parte ruim de ser paranoica é que...
− ... você é paranoica.
− Olha, se você vai ficar completando minhas falas, a conversa acaba por aqui. O que eu queria dizer é que histérica é a pior coisa que uma mulher pode ser.
− Não, o pior é ser poeta.
− Não entendo como ser poeta pode ser ruim para alguém além dela mesma.
− Uma poeta pode acabar com a vida de um cara, mandá-lo pra debaixo da ponte existencial. Ela irá te imortalizar nos versos, pro bem ou pro mal. Mais provavelmente para o mal, porque nada inspira tanto quanto relação que acaba em merda. Basta uma Trova ao Mau Amante, uma Ode à Paumolescência, e pronto, não há terapia que recupere o cidadão.
− Sério? Pensei que o que acabasse com um homem fossem os intermináveis almoços de domingo em família, a hipoteca, a prestação da mini van, o joanete causado pelo sapato social, a novela das nove, o sexo morno com hora marcada, as confraternizações de fim de ano da empresa.
− Isso também, mas o efeito é homeopático. O cara agoniza por anos. Com a poesia é diferente: uma leitura de poucos minutos e já era, o serviço está feito.


domingo, 29 de junho de 2014



 Não escrevo hoje com pretensão literária alguma. Este texto, na verdade, possui uma única e simples função: dizer-te o quanto você é um babaca.
Doeu? Então respira fundo e relaxa, porque vai doer mais. Espero que doa tanto quanto doeu em mim quando você me fez de trouxa. Eu sei, falei que não estava com raiva e tal. Mas sentimentos são mutáveis, ainda mais nessas situações. 
Partirei do pressuposto de que você nem faz ideia do que eu estou falando. Portanto, comecemos com uma citação clichê, dessas que toda miss usa uma vez na vida (mesmo porque foi isso que você se tornou na minha história: um cara clichê, com atitudes clichês).
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." Meigo, né? Já deve ter estampado milhões de capas de cadernos, agendas, camisetas e alguns daqueles adesivos cafonas que as pessoas colam nos carros. E mesmo assim, a humanidade caga para o significado dessa oração.
Para não me demorar neste assunto, resumirei minha humilde interpretação: se você se aproxima de uma pessoa com a intenção de forjar qualquer tipo de vínculo saudável, a sua obrigação é, no mínimo, não cagar na vida dela. 
Não parece muito difícil, né? Mas é. 
É difícil lidar com seus problemas pessoais e não envolver outras pessoas nos seus assuntos mal resolvidos. Mais difícil ainda é pensar com a cabeça de cima quando tem uma ruiva semi bêbada ao seu lado no sofá, toda confiante. 
É tão difícil que você não se lembra de que, teoricamente, não tinha segundas intenções ao entrar no apartamento de uma mulher solteira que mora sozinha. Nem se lembra de que em algum lugar do mundo existe uma pessoa que você chama de namorada, mesmo que, aparentemente, ninguém saiba dessa relação (se é que ela existe).
Então é isso aí, sua consciência se nubla e repentinamente você é só um macho tentando pegar uma fêmea. Essa parte eu até que me esforço pra compreender. Hormônios, instinto etc. Um par de peitos na sua frente e foda-se a razão. Como você mesmo disse, você abraça a causa. Abraça, beija, aperta, apalpa e dorme abraçadinho, na verdade. 
O problema é que a causa não vira uma pizza no dia seguinte, né campeão? A causa levanta e vai trabalhar achando que teve uma noite legal, que talvez se torne um lance bacana. Até releva o fato de você não ter as mãos mais habilidosas do mundo, afinal essas coisas podem ser ensinadas.
É aí que bate o desespero, né? No dia seguinte a vida continua, mas a noite passada não será apagada da história, então é melhor marcar aquele encontro como quem não quer nada, preparar a expressão clássica de arrependimento e assumir de vez que fez cagada. Em seguida você some, espera algum contato e depois usa a oportunidade para se vitimizar um pouco, afinal está sofrendo tanto com a situação na qual você mesmo se colocou. 
Acontece que ninguém vai passar a mão na sua cabeça e te chamar de bom garoto por ter reconhecido o erro: isso era o mínimo que qualquer ser humano vagamente decente deveria fazer. Em vez disso, serão cobradas algumas respostas que possam redimir seu caráter, ao menos em partes. 
Putz, respostas? Ai, que preguiça. Você não deve satisfações a ninguém. Nem à sua namorada, nem à outra pessoa que você envolveu nisso.
Mas, por um lado, tá tudo certinho né? Você vai se retirar por um tempo, se remoer de remorso e depois agir como se nada tivesse acontecido. Então vai ficar tudo bem, não vai?
Não, não vai. 
Não vai porque, graças a uma mancada sua, graças a uma tentação à qual você (diz que) não conseguiu resistir, existe uma pessoa que já possuía sérios problemas de confiança e agora acredita que não confiará em mais ninguém até a próxima encarnação. Existe outra pessoa que foi traída e talvez ainda nem desconfie disso. 
E quanto a você, amigão? Sinto dizer, mas você entrou para as estatísticas: toda vez que se deparar com uma matéria dizendo que quase metade dos homens já traiu uma parceira, lembrará que pertence a esse grupo. 
Pior: imaginará a quantidade de meninas ingênuas e românticas que têm seus corações partidos toda vez que leem uma pesquisa dessas, passando cada vez mais a acreditar que "homem não presta mesmo" e que romantismo é utopia. 
Agora eu sou o dedo na sua ferida, certo? Ótimo. Você reabriu todas as feridas na minha confiança, então acho justo. 
Quem sabe da próxima vez você assuma logo que só quer alguém por uma noite, sem precisar de demonstrações de afeto para ganhar a confiança da pessoa e de desculpas no dia seguinte. Talvez você considere que aquele ser tão bom de apalpar tenha um coração debaixo da carne macia, e que eventualmente esse coração tenha sentimentos. Ou quem sabe você varra essa história toda pra baixo do tapete e siga a vida como se nada tivesse acontecido. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Metade saudade, metade rancor

Mais uma noite na qual pego o computador, abro um arquivo e me obrigo a escrever - mas não sai nada.
Justo hoje.
Hoje faz um ano que você se foi, e ainda me pego te procurando quando entro naquele quarto. Estranha essa mania das pessoas de procurar ver o que não está mais ali.
Às vezes gostaria de ainda ser aquela menininha que subia no seu colo e lhe pedia para contar (pela enésima vez) a história daquela boneca que, mesmo quebrada e cheia de defeitos, ganhou vida porque alguém a amou como era. Mas não sou uma menininha há muitos anos, você não está mais aqui e tenho muito mais defeitos do que a boneca da sua história.
Só o que me resta são as lembranças. E quando começo a lembrar das suas particularidades, das suas manias, descubro-me tão parecida com você que me assusto - principalmente quando penso no seu fim.
Eventualmente, me pergunto se você se orgulharia da mulher que me tornei, mas raramente chego a uma resposta. Recordo aquela vez na qual você me viu chorando por um cara e, em vez de me consolar, falou que eu devia parar de agir como uma retardada. Naquela época doeu, mas hoje acho que foi a melhor coisa que você poderia ter dito.
Talvez por isso eu tenha tido aquele sonho dias atrás, no qual você me lançava os mais diversos insultos, e eu tentava me convencer de que era sua doença falando, mas você sequer parecia doente.
Neste momento sou metade saudade, metade rancor; em vários sentidos.
Perdi você, meus avós, meus tios e a tia Gracinha, que na verdade era sua tia, que me pegava no colo e fazia bolo de fubá. Aprendi que amor também se esvai.
Reflito sobre todas essas saudades, sobre o inevitável processo de endurecimento do meu coração, sobre uma boa maneira para finalizar este texto.
Não chego a conclusão alguma que me agrade.



terça-feira, 17 de junho de 2014

"Sinônimo de culpa"


"Sabe, eu acho que todo cara que faz uma cafajestagem deveria receber uma marca na testa, feita com um belo facão, como eles faziam em Bastardos Inglórios, para que o que eles são nunca pudesse ser ignorado ou escondido. Ou fazer uma tatuagem com a Lisbeth, de Os Homens que não Amavam as Mulheres.
Depois os caras reclamam se a mulher se torna uma megera... porra, mas a gente tenta, não? Tenta acreditar e até ser romântica, mas daí vem a vida... e os homens."

Pois é, minhas amigas têm opiniões um tanto radicais acerca de falhas de caráter. E elas têm motivos para isso.

Ou não.
Talvez, no fundo, sejamos mesmo só um bando de histéricas, exageradas e paranoicas fazendo dramas por nada.
Como quando aquele cara falou que sonhava com uma família só porque era a melhor estratégia para conquistar minha confiança.
Ou quando aquele outro declarou-se em uma noite, dizendo que queria tanto me ver que não poderia esperar o dia seguinte. Depois compreendi: no dia seguinte, comprometeu-se com outra mulher.
Ainda houve aqueles para os quais fui objeto de traição, sempre com a mesma desculpa: "não sei o que aconteceu, não consegui resistir".
A partir daí concluí, obviamente, que a culpa é minha, tanto como é da vítima de saia curta a culpa pelo estupro.
Tanto como foi minha culpa quando aquele amigo de uma década quase me forçou ao que eu não queria. Pobre rapaz, me achou tão irresistível que não percebeu quantas vezes o mandei parar, nem meu esforço para me livrar.

Mas no fim, não importa. Qualquer coisa que te faça debruçar por quase três horas sobre um texto e, ainda assim, não traga uma inspiração decente, não pode valer a pena.


Talvez por isso eu ainda escreva tanto pensando em você, inclusive textos que nunca publico. Escrevo para você sem intenção alguma, pois vale a pena escrever; porque a inspiração é tal que não pode ser negligenciada. Meus melhores textos ainda são, se certa forma, para você... Sir.


sábado, 17 de maio de 2014

A mágica do cotidiano

A mágica do cotidiano existe. Ainda que muitos não acreditem, ela está sempre lá, esperando para acontecer. Como aconteceu num fim de tarde de uma sexta-feira.
Ela passava por aquela esquina todos os dias, voltando do trabalho. Caminhava sempre rápido, não porque tivesse pressa, mas porque o ritmo da música nos fones de ouvido a embalava a seguir acelerada, e a mente inquieta não aceitava outro passo.
Neste dia, havia músicos de rua na esquina. Era comum nas sextas-feiras. Um violinista e um violoncelista, dois violinistas ou um saxofonista. São Paulo é repleta de músicos de rua.
Desta vez, era um violinista já conhecido que tocava, acompanhado por um violoncelo. Mas o violoncelista era um rosto novo para ela. Passou por eles a passos rápidos, como sempre fazia. Talvez não tivesse parado para ouvir a música. Mas então a mágica aconteceu.
Entre todos os rostos na correria da metrópole, ele olhou para o dela. Mais do que isso: ele sorriu. Por um instante, ela continuou seu caminho, mas não foi muito longe. Deu meia volta, tirou um dos fones de ouvido e, por um minuto, parou para ouvir a música. E ele percebeu que ela havia voltado. E mais uma vez sorriu.
Ela poderia ter ficado mais. Poderia ter ouvido a música inteira, ter deixado uma moeda. Mas escolheu sorrir de volta e continuar seu trajeto para casa.
Tinha se apaixonado, e se não tivesse ido embora o encanto acabaria, e ela seria só mais uma expectadora itinerante deixando uma moeda no estojo do instrumento. E para ela, ele seria só mais um músico de rua que a fez parar e tirar umas moedas da carteira.
Ela é do tipo que se apaixona todos os dias: por uma pessoa particularmente charmosa na rua, por uma música que a toque profundamente, por uma flor num galho de árvore no meio do cinza, pelo céu que está especialmente azul. Por um filme que a faz sonhar, por uma obra de arte que a encante, por um gato de rua que permita que ela o acaricie.
Não são paixões feitas para durar. São sentimentos passageiros que vêm para trazer um pouco de beleza para um dia comum. De algumas, ela mal se recorda no dia seguinte, mas mesmo estas não deixam de ser importantes. E a paixão desta sexta-feira é um violoncelista de olhos verdes na esquina da Rua Augusta com a Avenida Paulista.
Provavelmente eles nunca mais se vejam. Provavelmente ele não se lembre do rosto dela até o fim da música. Mas não importa, porque por alguns preciosos instantes, eles se sorriram.
E ele talvez nunca saiba, mas aquele foi o único momento de beleza do dia dela. E o dele foi o único sorriso sincero que ela ganhou e provavelmente ganhará nesse dia.
Ele não sabe, mas ela teve uma semana péssima, caminhando no fio da navalha, suportando cada dia o melhor que conseguia, mas não nesse dia, nesse dia as forças se esgotaram e ela não podia mais ser forte.
Ele não sabe, mas em algum lugar do interior o pai dela está morrendo numa cama, e a mãe se desespera e desconta nela suas frustrações, sua vida infeliz, seus arrependimentos. Em algum lugar da noite, o cara que ela gosta vai se divertir enquanto a deixa chorando em casa sozinha. E a conta bancária dela tem apenas dois dígitos, e o mês está longe de acabar.
Ele nunca vai saber que, assim que atravessou a Paulista, ela não conseguiu mais conter as lágrimas que vinha segurando o dia inteiro, e algumas rolaram discretamente, sem que ninguém percebesse (porque quase ninguém se olha duas vezes nessa cidade). E foi o sorriso que trocaram que libertou aquelas lágrimas. Porque o dia dela foi péssimo, mas o sorriso de um estranho a ajudou a superar. E ela foi correndo para casa, mais apressada do que de costume, pois sentia a necessidade inadiável de contar por escrito o que acabara de acontecer.



29 de março de 2012.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pardonnez moi, s'il vous plaît

Não tenho companhia para ir ao cinema amanhã. Gostaria de ver aquele filme para o qual você me convidou com tanto entusiasmo, mas não iremos assisti-lo juntos. Nem a esse, nem a nenhum outro.
Sei que seria ótimo, que nos empolgaríamos como adolescentes e falaríamos sobre o enredo, os personagens, as possíveis continuações e as inúmeras teorias durante todo o caminho de volta, riríamos de coisas bestas e não veríamos a hora passar.
Sinto muita falta disso, você sabe.
Mas não posso voltar atrás, entende? Não posso voltar, pois também sei o que se passaria "secretamente, entre a sombra e a alma" - como diria Neruda, pois os poetas sempre sabem das coisas.
Sei da ansiedade que precederia o encontro. Sei como eu sorriria quando você chegasse, como suas gentilezas me deixariam mais leve. E como, mesmo atenta ao filme, eu ficaria consciente da sua presença. Como o simples desejo de poder segurar sua mão ou deitar a cabeça no seu ombro me faria sentir tola e leviana. E durante a caminhada de volta, quando caísse entre nós o silêncio inevitável que sucede cedo ou tarde, eu teria de desviar o olhar, caso contrário me entregaria, transparante como meu nome.
E depois que me deixasse no portão de casa, me abraçando em despedida por meio segundo (que eu desejaria fosse meia hora, meio dia),  eu te imaginaria voltando para a sua vida. E quando chegasse ao elevador, a culpa começaria a me tomar, dez por cento a cada andar, até que, ao abrir a porta do apartamento, encontrando apenas as gatas e o silêncio, me sufocaria inteiramente.
Assim, sufocada pela culpa, paradoxalmente desolada, eu escreveria. Escreveria sobre melancolia e benquerença, sobre a solidão e as auto-acusações. Perderia uma ou duas noites de sono. "Afogaria-me em Ofélias".
E de algum modo, hora ou outra, você saberia. O que, certamente, me faria sentir ainda mais inconveniente e condenável.
Sendo assim, peço desculpas pela impertinência e pelo lirismo, pelas palavras e períodos que o espírito de pretensa escritora não pode conter. Sempre fui de tempestades.
Ausento-me não por gosto, mas por precisão. Não por falta de sentimento, mas por demasia.

Pardonnez moi, s'il vous plaît.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Quatro Estações - Primeiro Movimento

Encontraram-se pela primeira vez naquela esquina onde a Rua Augusta se encontra com a Paulista, um dos lugares favoritos dos músicos de rua de São Paulo. Era verão, e os cabelos ruivos dela pareciam faiscar ao sol. Os olhos verdes não miravam ninguém: a atenção era dividida apenas entre o violino no qual tocava Vivaldi e o estojo do mesmo, onde os ouvintes itinerantes depositavam suas moedas (ou, com muita sorte, uma ou duas notas pequenas).
Ele derretia dentro do terno preto, sapatos pretos e meias pretas. A luz do sol não acrescentava atrativo nenhum aos cabelos escuros, e os olhos escuros cansados prestavam atenção apenas no caminho, mas os ouvidos eram menos obedientes: a música o capturou.
Pensou em parar apenas por um minuto. Em seguida, escolheu escutar a música até o fim. Decidiu esperar para cumprimentar a violinista. Finalmente, sem saber ao certo como, estava convidando-a para tomar um café um dia desses, quem sabe, ao final do expediente dele.
E foi assim que tudo começou, num dia de verão.
Ele pensava que ela parecia uma gata de rua: ousada e orgulhosa, o corpo ondulando ao caminhar, as costas  se arqueando quando se espreguiçava, a displicência com a qual sentava-se e cruzava as pernas. Os olhos verdes sempre brilhavam, e ela sorria como quem sabe um grande segredo do mundo. Amorosa e livre, doce e voluntariosa. Sempre leve. Uma gata de rua.
Ela ria do mundo regrado dele, do emprego com cartão de ponto, dos ternos. Mas gostava de saber que ele sempre estaria por perto, e gostava do chá que ele fazia toda manhã.
Ela era aquilo que coloria seus dias.
Ele era sua âncora na vida.
Ele a levou a lugares elegantes, a ensinou a escolher vinhos, deu-lhe um arco de pau-brasil para seu violino. Ela o ensinou a gostar de filmes franceses e de concertos, e aos domingos o acordava com uma música e fazia bolo de limão.
E dessa maneira, entre os vinhos e o som do violino, eles passaram o outono.
Quando ele chegava em casa, nos dias mais frios, a encontrava quase totalmente imersa na banheira, apenas o rosto fora d'água, cabelos vermelhos boiando ao redor. Chegara mais cedo. Não se fazia muito dinheiro com música de rua no inverno, e era difícil tocar com os dedos gelados. Pela casa inteira sentia-se o doce perfume de flores dos sais de banho que ela usava - presentes dele, luxo que ela nunca tivera antes. Não que ela fizesse questão desse tipo de coisa, mas os sais deixavam sua pele com um cheiro que ele adorava, uma mistura de flor de cerejeira com algo que era totalmente dela.
Numa dessas noites, ela o puxou para dentro da banheira, de terno e sapatos de couro. Em outros tempos, ele teria ficado profundamente aborrecido - um terno sob medida e sapatos caríssimos, como pode fazer isso? Mas, daquela vez, apenas riu enquanto ela o ajudava a livrar-se das roupas.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Amigas ruivas

Passo o dia tentando arquivar na memória todas as palavras, frases, orações profundas e esteticamente belas que não posso escrever de imediato. Quando chega a noite, a memória está vazia de palavras que valham a pena.
Não há memórias de palavras, apenas de cenas, acontecimentos reais ou imaginários, delírios.
Em meio ao caos, uma cena sempre retorna: uma noite em frente ao boteco daquela faculdade no interior. Estava conversando com uma amiga. Talvez sobre política, sobre arte ou algo do gênero - eram nossos assuntos favoritos. Então, uma colega veio descendo a rua. Baixinha, cabelos ruivos bem curtos, rosto redondo, nariz arrebitado. Não era o tipo de mulher que muitos chamariam de bonita; mas certamente era marcante. E naquela noite, descendo a rua, não parou para se juntar à nossa conversa de bar, como de costume. Cumprimentou rápido, passou reto. Percebi que tinha os olhos marejados.
"O que ela tem?", perguntei à nossa amiga. "A pessoa que ela ama é casada".
Senti pela amiga ruiva. Pensei que realmente deveria ser uma situação desagradável. Mas eu não entendia, não é? Não tinha como entender.
Até recentemente, quando também desci uma rua chorando, uma rua muito distante daquela, os cabelos longos e ruivos escondendo o rosto - pelo menos eu ainda tinha essa vantagem. Porém, diferente da minha colega, parei num bar. Entrei, pedi uma cerveja e convidei um amigo para se juntar a mim. Nessa noite, entendi tudo.
E depois de algumas garrafas e muitas conversas, de toda culpa e covardia, a mensagem de despedida: "Foi bom te ver hoje :)"

segunda-feira, 17 de março de 2014

sem título

Assistia a uma menina que praticava arqueria. Atirava flecha atrás de flecha, mal preparando a mira, mas nunca errava o alvo. Era ainda muito jovem, mas fazia aquilo com confiança invejável, como se a habilidade fosse instintiva. Tinha um dom.
A seguir, confrontava uma amiga. "Como você, justo você, pode falar assim dela? Um dia, ela foi sua amiga também. Uma grande amiga". Por que estava tão irritada? Não sentia qualquer simpatia pela pessoa que defendia tão fervorosamente no sonho.

***

Elisa acordou. Espreguiçou-se languidamente entre os lençóis de algodão na grande cama de dossel, protelando o levantar, atordoada pelas excessivas horas de sono. Dormir sempre fora um grande prazer, e nas noites frescas de primavera, quando o aroma das damas-da-noite adentrava pela janela e impregnava o quarto com sua doçura, esse prazer tornava-se particularmente sedutor. Finalmente Elisa levantou-se, livrando-se camisola de cetim claro que deslizou suavemente por seu corpo, sendo abandonada no chão. Não era o tipo de mulher que se incomoda com essas pequenas desorganizações: ela mesma era um grande acúmulo de pequenas desorganizações, esmeradamente aprimoradas ao longo de quase trinta anos.

Caminhou até o aparelho de som, escolheu começar o dia com Edith Piaf. Les Amants d'un Jour, em bom volume, começou a tocar enquanto Elisa perguntava-se por que tivera sonhos tão estranhos naquela noite. Poderia dizer que nem pareciam seus, mas seria incoerente: ninguém mais dividia os sonhos com ela.
Uma garota que mal conhecia. Uma mulher que, há muito, não queria mais conhecer. Talvez o subconsciente não fizesse sentido algum, afinal. Assim como tantas outras coisas. Decidiu não pensar mais sobre o assunto.

Encheu a banheira e banhou-se demoradamente. Amava a sensação da água morna e dos sais de banho envolvendo-lhe pele, uma carícia bem-vinda numa manhã ociosa. Levantou-se apenas quando ouviu um chamado vindo do outro lado da porta. Por um instante, pensou ser uma voz de mulher, rouca, idosa; mas sabia que era a gata branca, exigente, queixando-se do isolamento da dona. A gata enroscou-se em suas pernas quando ela voltou ao quarto.

Elisa enfiou-se num vestido leve, desceu preguiçosamente as escadas de madeira do sobrado antigo e dirigiu-se à sala de estar, de onde veio o som de um espirro. O gato preto de olhos verdes, orgulhoso,  encarou-a do grande sofá: um soberano observando sua súdita. Quase destoava do ambiente leve e delicado da decoração provençal. Outro par de olhos verdes costumava sentar-se naquele mesmo lugar. Naquele dia, as lembranças adormecidas acordaram com Elisa. Refletiu: é a grande ironia da vida; ser tudo tão passageiro, e as lembranças, tão duradouras.

Seu devaneio foi interrompido pelo barulho de um livro caindo da estante, que guardava volumes e volumes de Poe, Whitman, Austen, Joyce, Guimarães Rosa, Bandeira, Espanca e, eventualmente, servia de cama para um gato. A gata amarela, pequena e usualmente cuidadosa, havia derrubado um exemplar d'O Livro de Mágoas, aberto em "Amiga". Elisa recolheu o livro e suspirou, sentindo que, além das lembranças, as coincidências também haviam decidido atormentá-la.

Precisava de um café forte, amargo, que espantasse ao menos temporariamente a doce melancolia. Enquanto a cafeteira trabalhava, sentou-se à mesa e passou a folhear o livro de maneira displicente, quando as contas da cortina da cozinha soaram sutilmente, indicando que alguém adentrava. O gato rajado de cinza e branco aproximou-se de mansinho, sem fazer mais um ruído. Apenas sentou-se aos pés da dona, plácido, trazendo consigo mais memórias.

Uma lágrima de frustração correu pelo rosto de Elisa. Aquilo era demais.

***

Elisa acordou. Sentia os ombros doloridos por uma noite mal dormida e a cabeça latejando com a ressaca da noite anterior. Dormira mal, mas lembrava-se vagamente de sonhos incomuns. Dormiria mais se pudesse, muito mais. Mas já estava atrasada, e precisava de um banho para sentir-se gente novamente antes de subir a Rua Augusta correndo, tentando chegar no trabalho num horário decente. Àquela hora da manhã de sábado, os últimos boêmios ainda estariam na rua, pelas calçadas dos bares. Ou  estariam ali. Quem poderia dizer? Não importava. De qualquer maneira, ela teria de suportar os gracejos e o fedor de vômito e bebidas baratas.

Levantou-se da cama de dossel, a única coisa realmente bela no pequeno apartamento. Além dela, talvez, ou pelo menos era o que diziam. Entretanto, não costumava dar ouvidos a esse tipo de comentário. Cruzou o quarto e sala a passos apressados. Tomou uma ducha, enfiou-se em jeans e camiseta.
A entrega à melancolia e aos devaneios teria de esperar até a noite.

***

Elisa acordou.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Insônia.

Caminhamos e rimos, falamos sobre todas as coisas leves - leve é a noite.
Então, o silêncio.
Viro o rosto, desvio o olhar - se eu não o fizer, ele me descobre.

(a noite só é leve porque carrego todo esse peso sozinha)



quarta-feira, 3 de julho de 2013

Misunderstood

Caminhava pela noite de jaqueta de couro e coturnos, a passos pesados e apressados, mas era a suavidade de um jazz que fluía pelos fones de ouvido do music player, enquanto Nina Simone cantava apenas para ela. A voz encorpada, negra e melancólica, reverberava nas lembranças de momentos atrás e apertava-lhe o coração como a prensa da saudade, mas ainda não havia motivo para isso. Ou havia? Era melhor não questionar demais.

"Doncha know that no one alive can always be an angel?
When everything goes wrong you see some bad"

Ela detestava clichês, frases de efeito, sabedorias de porta de banheiro de rodoviária. E detestava especialmente saber que tudo isso continha verdades irrefutáveis, por mais medíocres que soassem - talvez as verdades fossem isso, afinal: mediocridades. E a verdade que a assombrava naquele instante era a de que as palavras ditas não voltam atrás. Partiram. Até nunca mais. Adieu.

"Well I'm just a soul whose intentions are good

E as palavras soltam-se como que por vontade própria, ou pela necessidade de culpar alguém pela miséria, e fazem lá seu espetáculo, e depois abrigam-se na memória, em uma grande cama de dossel ou num canto empoeirado,mas que diferença faz? A questão é que se instalam, mesmo não convidadas.

"Life has its problems
and I get more than my share"

Em algum outro contexto, serviria como consolo saber que uma das detestáveis sabedorias populares estava errada: é sempre tarde demais. Mas agora, não servia de nada. Os passos iam no mesmo ritmo do coração, e eram bem apertados. Se o que os apertava era a lembrança da conversa por telefone aquela noite, de um corpo branco num caixão ou de uns braços num abraço que não era o seu, não saberia dizer.

Mas sabia que a próxima música da playlist era Remind me, e isso não ajudava em nada.

domingo, 23 de junho de 2013

Ariranhas

Meu pai gostava de ariranhas.
E de assistir a concertos de música clássica na televisão, de tortas de banana e do Frank Sinatra. De tocar piano nas manhãs dos fins de semana, acordando quem ainda estivesse dormindo, de pintar quadros escuros abstratos e de falar ao telefone com os amigos de longa data. De ler revistas, de vinho tinto e dos Demônios da Garoa. Também gostava de gritar com a gente de vez em quando.
Gostava de ver reportagens sobre ufologia e assuntos sobrenaturais, e achava ridículo o medo que eu tinha dessas coisas quando criança.
Gostava de contar histórias de quando voava de avião e saltava de asa-delta e usava gravatas-borboleta. De me contar a história de uma boneca estragada que ganhou vida porque encontrou alguém que a amava como ela era.
Gostava de saber que eu estava aprendendo francês e violino.
Mas agora mesmo, o que me fez chorar foi que, depois de tantos anos, senti vontade de ir ao zoológico, e lembrei que meu pai gostava mais das ariranhas.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Em defesa da Barbie

“A Barbie ensina as crianças a serem putas”, disse a historiadora Mary del Priore ao site da revista TPM numa entrevista há alguns anos, a qual li recentemente. Segundo ela, as Barbies transformam as meninas em mulheres fúteis e consumistas, que só pensam em roupas e em fitness. E não estão nem aí pro Ken, aquele pobre diabo apaixonado (a descrição é por minha conta).
Mas será?
Não posso falar por todas as meninas que brincaram de Barbie nem por todas as putas, mas posso falar por mim.
E digo que a senhora del Priore está certa. Eu, que a certo ponto da infância passei a rejeitar as bonecas bebês e a desejar só bonecas Barbie, tornei-me uma consumista descontrolada. De verdade. Devo confessar que, hoje mesmo, fui a uma grande livraria e, seduzida por tantos títulos a preços promocionais, fiz compras que não devia: trouxe para casa Poe, Whitman e, para relaxar, um filme do Tim Burton. Consumismo de quem ganha pouco; se pudesse, teria trazido também mais uns Dickens, Proust e o box de As Mil e Uma Noites. Puro consumismo.
Há meses, clareei meus cabelos, naturalmente pretos retintos: tive de fazer isso para chegar ao vermelho vivo que tanto desejava.
E preocupo-me com minha forma física, claro. Estou numa dieta extremamente restritiva: troquei o chocolate ao leite pelo amargo. 
Agora, quanto a ser puta, olha, como eu disse, ganho pouco. Se fosse uma puta de "nível universitário", não teria utilizado esse argumento. Talvez devesse ter aprendido com a Barbie a agarrar um cara rico, afinal, se ela nem curte o Ken mas está com ele há tantos anos, deve ser por interesse.
Minha mãe, que me dava as Barbies de presente, hoje em dia se preocupa com o fato de eu gastar a maior parte do que sobra do salário em livros. Mas foi ela que me ensinou a ser consumista, não foi? Dar Barbies de presente à sua filhinha e levá-la à biblioteca pode ser uma combinação perigosa. E foi por isso que, logo que parei de brincar de bonecas, passei a dedicar grande parte do meu tempo aos livros.
E não fui a única! A maioria das minhas amigas brincava de Barbie na infância. Uma delas, inclusive, redecorou o quarto recentemente e o pintou de "rosa Barbie". Precisou fazer as mudanças no cômodo para abrigar a coleção de livros, que já não cabia nas prateleiras. E isso porque a mãe dela não era tão adepta da leitura quanto a minha!
Interessante, não? Uma boneca não fez de mim uma vadia superficial e interesseira. Aliás, duvido que uma boneca seja capaz de fazer de qualquer menina uma vadia. A educação (ou a falta dela) é que faz. 
Qual a culpa da boneca? Ser linda, rica, loira e magra? Eu nunca quis ser loira, embora ficasse feliz com uns quilinhos a menos. E ser rica, bom, deve ser legal, mas entre ser rica e estudar Letras, escolhi a segunda opção. Assim como tantas meninas (hoje mulheres) que conheço.
E quer saber mais uma coisa? Se algum dia eu tiver uma filha, ela terá todas as Barbies que quiser. Até me imagino brincando com ela: "Olha só, filha, agora sua Barbie tem um carro! Sabe como ela conseguiu comprar um carro? Trabalhando. Ela já teve várias profissões, lembra? Veterinária, médica, executiva. Ela trabalha pra conseguir o que quer".
Peraí, Barbie executiva? Ok, voltei demais no tempo. Acho que a mosqueteira é mais recente. Vamos lá de novo. "Olha que legal filha, ela é mulher, mas também pode ser forte e lutar".
Entende meu ponto, senhora del Priore? A culpa não é da boneca, coitada. É da criação e de todas as influências que vêm com ela. Mas não só da Barbie. Aliás, tenho de dizer: adoro a Barbie. As minhas me fizeram companhia durante muitas tardes, e ainda tenho a maioria delas, embora hoje colecione Monster High (que, espero, não incentive nenhuma menina dessa geração a se tornar um monstro).
No restante, adorei seu texto e concordo com ele. Principalmente com o que você diz sobre a Tati Quebra-Barraco. Aquilo foi ótimo.



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domingo, 12 de maio de 2013

São Paulo, Brasil - 24 de maio de 1975


São Paulo, Brasil – 24 de Maio de 1975
Minha querida,
Confesso que surpreende-me ser chamada de “querida” por você, justo você, que me chamava “caríssima” apenas para me provocar, pois eu dizia que o tratamento soava por demais formal e distante. Ainda assim, você bem sabe que eu lhe perdoaria todos os “caríssimas” que dirigisse a mim, apenas pela alegria que me dá finalmente receber notícias suas.
            Não encontro palavras para expressar o alívio que sinto por saber que está bem; na época de seu sumiço, cheguei a pensar no pior. Procurei notícias suas com todos os amigos, mas as informações estavam desencontradas.Ouvi dizer que você tinha ido para o interior usando documentos falsos. Semanas depois me disseram que estava na França, mas sei que você nunca foi boa em francês, e não confiei na informação. Depois de um tempo, uma parte de mim deixou de acreditar que algum dia eu saberia novamente notícias suas – notícias de minha querida.
            Como esquecer o ano de 69? Foi o ano do nosso vendaval. Ainda hoje me lembro de você batendo à minha porta, em desespero, ofegante. Foi arriscado, sim. Mas quem, naquela época, não se arriscou para dar abrigo a um camarada? E você era bem mais que um camarada para mim, e continua sendo. Lembro que também chorei pela Ritinha. Que guerreira, aquela. Morreu como viveu: lutando pelo que acreditava, sem medo de nada. Deveria haver mais Ritinhas no mundo.
            Você citou meu apartamento na 24 de Maio. Ainda hoje, guardo muitas lembranças daquele lugar, boas e ruins. Me lembro das nossas reuniões clandestinas, todos reunidos na minha sala, discutindo política, bolando planos de ação. Lembro que estávamos lá quando o Alê chegou às pressas, dizendo que os militares haviam pego o Marcos. As lembranças permanecem, mas o apartamento não. Deixei-o pouco depois do seu desaparecimento: a movimentação noturna estava começando a levantar suspeitas. Voltei para o apartamento de minha mãe, naquele grande prédio na Avenida Ipiranga, embora passasse pouquíssimo tempo por lá.
            Estou hesitando. Como contar a você tudo o que vivi desde então? Faz pouco mais de um ano que não nos vemos, e nossas vidas estão tão mudadas, mudadas como o tempo costuma mudar aqui em São Paulo, de uma hora pra outra, sem nenhum aviso.
            Nem todas as minhas notícias são boas. Há seis meses, meu pai sucumbiu àquele câncer que o atormentava. Foi uma época difícil pra mamãe e eu. Alugamos a sala onde ele tinha a alfaiataria, na Avenida São João, e agora ali funciona uma loja de artigos finos.
            Quanto à guerrilha, fui obrigada a me afastar. Primeiro, pela minha mãe. Você sabe, ela é professora de estatística na USP, e embora o pessoal de humanas sempre seja mais suspeito para os militares, eu não podia colocá-la em risco, e algumas suspeitas já começavam a surgir em torno da filha dela.
            Também não concluí meu curso de Direito na São Francisco. Sinto falta da universidade. Não só das aulas, mas de andar pelos corredores, tocar nos corrimãos onde tantos personagens importantes da nossa história tocaram antes de mim. Sempre que eu passava pelo busto de Álvares de Azevedo, eu lembrava de você. Sinto falta daquele bar na São Bento, onde costumava beber e conversar com os colegas depois das aulas, onde você ia nos encontrar de vez em quando.
            Sinto falta também do Valtinho. Lembra do Valtinho, aquele de quem eu te falava? Estudava na minha classe. De repente, alguém batia na porta, fazia um sinal e ele saía correndo. Estava sempre sendo perseguido, mas continuava na luta. Ele aparecia nas nossas reuniões de vez em quando: cabelos escuros enrolados, olhos verdes, só um pouco mais alto do que eu. Como posso lhe dizer? Eu me envolvi com o Valtinho, pouco depois da morte do meu pai.
            Entenda, eu estava arrasada: havia acabado de perder meu pai, e a cada dia tinha mais certeza de que perdera também você. Não éramos próximos na época, ainda assim ele me ofereceu todo o conforto de que eu necessitava. Foi meu suporte, meu pilar, minha fonte de forças. Passamos alguns meses juntos. Minha mãe não gostava dele, dizia que era uma companhia perigosa, que eu levantaria ainda mais suspeitas de subversão enquanto estivesse com ele. Mas era o que eu queria, o que eu precisava naquele momento... não dei ouvidos.
            Um dia, o Valtinho sumiu. Ou, mais precisamente, sumiram o Valtinho. Passou-se mais de uma semana sem que ninguém soubesse dele, nem os amigos, nem a família, nem ninguém. Até uma noite quando, segundo uma vizinha, um furgão parou na frente da casa dos pais dele na Móoca e ele foi largado na calçada. Irreconhecivel, Cinzia, ele estava irreconhecível. Parecia uns sete quilos mais magro. Metade dos dentes arrancados, assim como as unhas. O rosto, desfigurado pelos espancamentos. Mas isso tudo não era nada... todas essas feridas poderiam ser tratadas. O mais assustador era a mente dele, Cinzia. Ele perdeu a razão. Completamente. Não nos reconhecia, não sabia onde estava, assustado como uma criança.
            Já tínhamos ouvido falar sobre camaradas que tiveram esse fim, mas eu nunca tinha visto isso acontecer com alguém próximo a mim. Foi um choque. Mais do que um choque. Isso tirou o chão sob os meus pés. Você sabe como eu sou, sempre tão sensível aos acontecimentos e às coisas que me rodeiam. Cheguei a adoecer, não comia, sentia-me constantemente enjoada. Minha mãe me obrigou a ir ao médico. Então, ouvi a notícia que faria com que tivesse forças para me reerguer e seguir em frente: eu estava grávida do Valtinho.
            Você está surpresa? Imagine a surpresa que eu tive. Grávida! Eu, que nunca tive a família como meu maior objetivo de vida! Grávida de um homem que perdeu a razão, que nunca poderá ensinar um menino a empinar pipa, ou uma filhinha a andar de bicicleta. Culpa dos militares. O cenário político atual deixará para sempre uma marca na história deste país, e também em nossas vidas.
Hoje estou no terceiro mês de gravidez. Vendemos o grande apartamento na República, pois estava difícil custear as despesas, ainda mais sem meu pai. Estamos agora na Vila Buarque, num apartamento bem menor, mas que nos serve muito bem. No próximo mês iremos comprar um berço e mais algumas coisas para o bebê. Você sabe como vou chamá-lo, Cinzia? Se for um menino, vou chamá-lo Amadeus, em homenagem a você. Lembro do quanto você ama Mozart. Aliás, ainda chora com a Marcha Fúnebre? Seu disco ficou comigo, mas nunca mais o coloquei na vitrola. Agora que sei que está bem, posso voltar a ouvi-lo.
Sua carta me encheu de novos sonhos e esperanças. São tempos difíceis pelos quais passamos, eu sei. Mas quero acreditar que logo poderemos estar juntas novamente. Imagino que logo você poderá voltar ao Brasil, e então iremos os quatro, eu, você, minha mãe e meu Amadeus (pois tenho certeza de que será um menino) para o interior de Santa Catarina visitar minha avó, e tiraremos outra foto debaixo daquela mesma macieira. Você vai ver como os biscoitos dela são ainda melhores do que os meus, assados no forno à lenha. E vai reparar como realmente não tenho sotaque, embora você sempre diga o contrário. Saí do Sul ainda menina, o sotaque não me acompanhou. Vamos passear pelo sítio, eu, você e Amadeus. Vou ver seu sorriso novamente, esse sorriso de eterna menina. E você poderá me dar aquele beijo, aquele que ficou no ar, interrompido por uma porta bruscamente aberta...
Agora o sono começa a me vencer, embora ainda seja apenas nove horas da noite. A gravidez tem me deixado sonolenta. Espero receber mais cartas suas, minha querida. Cuide-se, e tome cuidado com esse frio. Não vá pegar outra gripe como aquela que teve no inverno de 68, quando fomos acampar na Cantareira e você insistiu que um cobertor apena era o suficiente.
E não se sinta só. Meus pensamentos estão sempre com você, como sempre estiveram. Como sempre estarão.
                                     Com saudade infinita,
Valentina Bauer